28 de janeiro de 2010

Tradução.

Eduardo Estanho. (Pseudônimo de Alguém)

Andei muito desinteressado, calmo, estranhamente nojento. Antigamente queria ler todos os livros do mundo, Dostoiévski, Balzac, Poe, García Marquez, Camões, Dumas, Tchekhov, Sófocles, Eça, Pessoa, Tolstói, Castro Alves, entre infinitos outros, não suportava críticas voltadas ao processo de formação, criação, composição dessas obras, e de qualquer outra coisa na vida, por pessoas que nem sequer apreciaram as, no mínimo, 30 primeiras páginas de cada título, não havia algo mais estúpido para mim do que o preconceito.
Andava por aí me simpatizando pela primeira criatura que demonstrasse satisfação por suas paixões, e sim, paixão para mim tinha outro significado, se houvesse algo a fazer, e de fato fosse feito para que a real condição da integridade da racionalidade humana fosse preservada em função de atos marcantes, que poderiam ser considerados por muitos um absurdo, estaria então presenciando uma paixão, mesmo que por uma causa perdida. Aplaudia de pé. Era eu então alguém que fazia o bem, fazia tudo que devia ser feito, sem recolher migalhas, sem chorar o leite derramado.
Fiz certa vez o cálculo da minha personalidade, me deparei porém com alguém desprezível, não, minto, me deparei com alguém amável, o único problema era possivelmente a minha vontade de sempre continuar, brilhante qualidade que já perdi, mas era um problema.
Não tinha amigos... na verdade só alguns, um deles morreu e fiquei profundamente magoado, pois foi sem me avisar, o odiei por algum tempo, depois fiz questão de reconsiderar, se ele estivesse presente eu sabia que ele se desculparia, era sempre assim o desgraçado, fazia algo que não estava certo, para sustentar o seu orgulho, gostava de comentar informações antes das pessoas as assimilarem, como em filmes por exemplo, isso só demonstrava a sua infeliz capacidade de ter senso crítico e sua pouca habilidade, se é que possuía alguma, de interpretar fatos, mas depois sempre voltava atrás, era inseguro porém um grande e incomparável filho da puta, na verdade não, era uma boa pessoa, uma grandiosa boa pessoa, que foi-se tarde.
Tinha eu um reajuste de personalidade, os médicos chamavam de transtorno bipolar mas eles haviam estudado muito para deduzir o que era, eu diagnostiquei reajuste de personalidade, que funcionava da seguinte forma, eu agia de acordo com meus preceitos e seguindo a trilha da minha personalidade, havia então um choque entre a forma como eu agia e o ato, minha mente a partir daquele momento julgava necessário mudar, mudar para corrigir, mudava então da água para o vinho, sofria é verdade, sofria e sabia porque mas é a triste natureza humana de sempre voltar no erro ou pelo menos alcançar outro. No começo foi difícil mas depois que me acostumei julguei necessário ajudar, disse que era uma boa pessoa, então aprendi através do sofrimento corrigir, mudar para corrigir, comecei a entender o principio do reajuste e até passei a gostar daquele sentimento que parecia ruim, sofrer. Perdi a conta de quantas pessoas eu corrigi. Descobria então a minha Paixão.
No inicio eu ficava triste e pasmava pela forma como era retribuído, achava eu que seria uma grande pessoa, notável e amada, diferente daquele meu detestável grande e melhor amigo, que o diabo o tenha, entendi então que havia mudado, não tinha mais as mesmas ambições, andava muito desinteressado, calmo, estranhamente nojento, não tinha mais as mesmas amizades, afastaram-se de mim tudo e todos, de principio eu não entendia, tentava buscar o porque, até alguém aparecer, e não sei se foi real, mas me fez perceber que eu havia me tornado uma diabólica e bizarra criatura. Não tenho intenção de lhe apresentar, suposto leitor, os pormenores de minhas atitudes, as condições nem situações de meus reajustes de personalidade, muito menos algo que lhe ponha entrada a dentro da gruta que era minha vida. Apenas saiba que de onde estiver, estarei vomitando indecência, ansiedade e tristeza misturado com suco gástrico.

Carta de suicídio. 18/11/2009 (encontrada na caixa de correio de uma antigo casarão abandonado próximo à cidade de São Paulo.)

Introdução.

Olá, pretendo neste blog lançar mão de idéias literárias de minha autoria que me ajudem na criação, identificação ou transformação de personagens de minhas histórias, estudar análises pelo meio da prática e suas fórmulas baseadas em experimentos, basicamente do cotidiano, ou até mesmo por puro momento de reflexão e impulso. Não espero atingir sucesso, apenas criei um local reservado e ‘recluso’ para recitar um mundo de idéias e dividi-los com aqueles que assim desejarem, gostaria de receber críticas, opiniões através dos comentários, não tenho frescura e tudo que disserem será aproveitado, assim espero. Obrigado e sejam bem vindos ao um local mórbido, obscuro, político, físico, forte, fraco, indesejável, agradável, inteligível.